Ballet e Transtornos Alimentares

Hoje o papo é sério.

ANOREXIA NERVOSA e BULIMIA NERVOSA são transtornos alimentares bastante prevalentes entre praticantes de ballet e são perigosíssimos. Um estudo conduzido pela Universidade de Pittsburg em 2006 chegou à chocante conclusão de que, entre as bailarinas profissionais que participaram do estudo, 6,9% tinham Anorexia Nervosa, 10,3% tinham Bulimia Nervosa e 10,3% apresentavam uma combinação entre ambos. Um outro estudo realizado em Firenze, desta vez com bailarinas amadoras, mostrou que 1,8% daquele grupo tinham Anorexia Nervosa e 2,7% tinham Bulimia Nervosa.

Eu resolvi hoje escrever sobre esse assunto incômodo porque eu já passei por isso na minha adolescência e foi uma fase muito difícil e solitária. Eu tive Anorexia Nervosa entre meus 15 e 17 anos. Clinicamente falando, meu caso não foi dos piores, meus pais perceberam e interviram (à força) e eu acabei me recuperando relativamente depressa. Quem está vivendo o transtorno alimentar sofre em silêncio, não costuma revelar o “segredo” para ninguém, para evitar interferências. Só comenta com quem sofre do mesmo mal para trocar dicas mórbidas e competir para ver quem está mais magra. O vazio, no estômago e na alma, é insustentável. Meus únicos prazeres na época eram minhas aulas de ballet e quando apareciam novos ossos sob a minha pele branca e ressequida. Na minha época, a internet ainda não existia. Por um lado, ainda bem. Hoje em dia basta dar um “enter” no Google e se deparar com horrendos guias de como se tornar uma anoréxica, grupos de discussão, etc. Um perigo, uma tristeza.

Nos últimos anos, o padrão de beleza ocidental valoriza a mulher magra, como sendo um símbolo de competência, sucesso, controle e atrativos sexuais, enquanto o excesso de peso e a obesidade representam preguiça, falta de autocontrole e força de vontade. No mundo do ballet, isso é ainda mais evidente, pois a dança por si só é uma atividade estética, e as bailarinas, para tal, precisam ter leveza, agilidade e total domínio do corpo e de seus movimentos. O ballet requer um alto desempenho físico e, devido às necessidades estéticas que a dança exige, as bailarinas sofrem grande pressão para se manter magras e, assim, podem se submeter a atitudes drásticas e extremamente perigosas para atingir esse objetivo.

Os distúrbios alimentares têm origem multifatorial, envolvendo predisposição genética e sociocultural, além de vulnerabilidades biológicas e psicológicas. A utilização de dietas é o principal fator que antecede a instalação de um distúrbio alimentar. Isso não significa que uma pessoa que queira perder alguns kilos e decida entrar em uma dieta hipocalórica vá desenvolver algum transtorno alimentar. Mas a dieta costuma ser o gatilho de interação entre os fatores de risco e os outros eventos precipitantes.

CONHECENDO OS TRANSTORNOS ALIMENTARES

Anorexia Nervosa

A Anorexia Nervosa é caracterizada pela busca implacável da perda de peso. Quanto mais se perde, mais se quer perder, há um medo irracional de engordar e uma distorção da própria imagem corporal. O comportamento clássico na Anorexia Nervosa é uma progressiva e grave restrição alimentar. No início, a pessoa evita determinados alimentos: doces, pão, batata, arroz, frituras, etc. Em seguida, passa a eliminar um número cada vez maior de alimentos, até chegar a se alimentar única e exclusivamente de verduras ou frutas (e cada vez em menores quantidades). Pode chegar a consumir somente alimentos “light”, ou inclusive a viver somente de líquidos. Além disso, é comum ir, aos poucos, reduzindo a frequência das refeições. A pessoa decide cortar o café da manhã, depois o jantar, depois decide almoçar apenas dia sim, dia não, por exemplo. Até chegar próximo a zero. As questões ligadas ao alimento se tornam centrais e a perda de peso, o objetivo de vida. A restrição alimentar leva a um emagrecimento extremo, mas a pessoa nega o problema, mostrando-se indiferente ao seu estado nutricional deplorável e sentindo-se gorda, apesar de todas as evidências contrárias. O excessivo medo de engordar leva a pessoas a praticar exercícios vigorosos, abusar de laxantes e diuréticos e, em 40% dos casos, provocar vômitos.

Consequências: são muitas as complicações causadas pela Anorexia Nervosa. Pode haver redução da acuidade gustativa e da motilidade gástrica. Devido à desnutrição que se instala, o organismo realiza alguns ajustes fisiológicos, que resultam em baixa taxa de metabolismo basal, baixa pressão arterial, diminuição dos batimentos cardíacos, hipotireoidismo, hipotermia, constipação intestinal e alterações no sono. A pele fica fria e pálida, os ossos ficam aparentes, há diminuição da densidade óssea, podendo resultar em osteoporose precoce. Há intensa queda de cabelos, há o aparecimento de uma fina camada de pelos sobre a pele (lanugo) e de problemas de pele. Anemia, leucopenia e altos níveis de colesterol total são também encontrados como consequência da desnutrição. A pessoa sente muito sono. A amenorreia (ausência, no mínimo, três ciclos menstruais consecutivos) é outro fator comum. A Anorexia pode matar. De acordo com a Stanford Medical School, 1 em 10 pessoas acometidas pelo transtorno acabam indo a óbito por desnutrição ou suicídio. Se não tratada corretamente, a Anorexia Nervosa pode permanecer indo e vindo durante a vida toda, já que a pessoa não consegue enxergar o próprio problema.

Sinais: a pessoa com Anorexia Nervosa tem obsessão pela comida e uma estranha ligação com a cozinha, fala constantemente sobre dietas e sobre a quantidade de calorias dos alimentos, mas muitas vezes gosta de cozinhar para a família, colecionar receitas e controlar a comida que existe em casa, fazendo listas de compras, ou comprando os alimentos, ou vigiando o preparo dos pratos. Pode preparar pratos saborosos e elaborados para a família, porém, ela mesma nunca os come como uma prova de autocontrole para si mesma. Outras vezes, pode apresentar desculpas para não comer em casa (e ficar sem comer nada, naturalmente). A pessoa pode aumentar a atividade física ainda mais, como fazer mais aulas de ballet por dia, ou ir caminhando para todos os lugares, exercitando-se assim várias horas, evitar elevadores e usar as escadas etc. Abre parênteses – Eu, por exemplo, fazia cinco horas de ballet por dia e, ao chegar em casa às 9h da noite, ficava pelo menos mais uma hora na bicicleta ergométrica da minha mãe. Fazia lição de casa em pé porque em pé gasta-se mais calorias do que sentada, entre outras doideiras – fecha parênteses. Continuando, a pessoa se veste frequentemente com roupas largas e/ou sobrepostas, cuja função a princípio é disfarçar as supostas partes “gordas” (quadris, barriga, etc). Depois, a função passa a ser esconder a magreza extrema.

Bulimia Nervosa

A Bulimia Nervosa é caracterizada por episódios de comer compulsivamente seguidos de métodos compensatórios e inadequados para evitar o ganho de peso. Os episódios bulímicos são caracterizados pela ingestão, em curto intervalo de tempo, de uma quantidade absurda de comida, acompanhada do sentimento de perda de controle sobre a alimentação; ou seja, a pessoa sente-se envergonhada e culpada por não conseguir parar de comer ou não controlar o que e quanto se consome. Chega-se a ingerir 5.000 calorias de uma só vez e muito rapidamente. A refeição não tem nexo: começa com um pacote de pão de forma junto com bolo de chocolate, em seguida frango com arroz frio e leite condensado, por exemplo. As pessoas com Bulimia Nervosa são excessivamente influenciadas pelo peso e forma corporal. Dentre os métodos compensatórios, estão o vômito auto-induzido, abuso de laxantes, diuréticos e outros medicamentos (como hormônios tireoidianos e anorexígenos), jejum, dietas rigorosas ou períodos de restrição alimentar, exercícios físicos excessivos, entre outros.

Consequências: a Bulimia Nervosa também pode levar a várias complicações. Diferentemente da Anorexia Nervosa, não é um quadro com características “visíveis aos olhos”, pois as pessoas acometidas normalmente têm peso normal ou até sobrepeso e as alterações físicas são – pelo menos no início – sutis e observáveis apenas por profissionais. São três os sinais clínicos clássicos na observação do pacientes com Bulimia Nervosa: (1) a hipertrofia bilateral das glândulas salivares, particularmente das parótidas; (2) a lesão de pele no dorso da mão, conhecida como “sinal de Russel”, causada pela introdução da mão na boca para estimular o reflexo do vômito, que pode variar de calosidade à ulceração; e (3) dentes amarelados devido ao desgaste dentário provocado pelo suco gástrico dos vômitos, que leva à descalcificação dos dentes e aumenta o desenvolvimento de cáries, podendo levar até à perda de dentes. A pessoa que sofre de Bulimia Nervosa apresenta baixa auto-estima e tende a se isolar socialmente, evitando reuniões sociais ou viagens. Outros sinais e sintomas clínicos encontrados são: inchaço generalizado, queda de cabelo, equimoses (pintinhas vermelhas) na face e no pescoço (devido ao esforço para vomitar, os vasos sanguíneos estouram), descamação da pele, alterações menstruais, hipotermia, gengivite, mau hálito, fraqueza muscular, câimbras, arritmias e falência cardíaca (o coração não suportará os vômitos diários e uso constante de laxativos), urinar frequente, desidratação, carência de vitaminas e minerais, doenças renais, lesões no esôfago, constipação crônica e dilatação gástrica (podendo até chegar a perfurações gástricas causadas pelo excesso de volume no estômago, vazando suco gástrico para o interior do abdome e resultando em óbito).

Sinais: existem certos sinais indicadores de Bulimia Nervosa. A preocupação excessiva com o peso é o principal indicador. Se a pessoa fala sem parar sobre seu peso ou aparência, ela pode estar em risco de desenvolver um transtorno alimentar. Pessoas com bulimia geralmente comem escondido e ocultam os sinais. Se você notar um desperdício anormal de alimentos e/ou embalagens, pode ser o resultado de uma compulsão. Pessoas com Bulimia Nervosa costumam apresentar cortes nas mãos ou dedos, causados pelo atrito com os dentes. Repare se há equimoses na face e no pescoço. Preste atenção também se a pessoa passa muito tempo trancada no banheiro.

De coração, a mensagem de hoje é “NÃO CAIAM NESSA”. Se você se vê em algum dos sintomas mencionados acima, não demore a aceitar dentro de si e tomar as providências necessárias procurando ajuda. Se você reconhece os sintomas em alguém próximo, ajude. Mostre compaixão para com a dor e a confusão que essa pessoa está sentindo. O tratamento dos Transtornos Alimentares é sempre multidisciplinar (médico, psicólogo e nutricionista) e costuma ser bastante demorado, então o envolvimento da família é fundamental.

Beijos e até a próxima!

Fabiana Cusin, Nutricionista, Formada em 2000 pela Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP - USP), CRN-3  25.467.

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