Sara Mearns, bailarina do NYC Ballet tem um novo papel: SER MÁ.

Fadas podem ser tão inconstantes. Em uma noite, tudo que você quer fazer é quebrar um feitiço. Em outra, com gelo correndo nas veias e um sentimento malicioso, você coloca uma maldição em ação.

Na quinta passada, Sara Mearns, glamurosa, uma das principais bailarinas do The New York City Ballet, fez uma improvável estréia: a fada Carabosse, no ballet “A Bela Adormecida”.

Seu papel habitual, que ela representou na quarta-feira, é o da Fada Lilás, protetora da Princesa Aurora, que tem o poder de neutralizar a maldição da morte da fada Carabosse.

Sara Mearns, 31 anos, é uma bailarina educada, mas capaz de tudo ou nada, que reage através de sua profunda conexão com a música. Como falou em seu camarim na quinta-feira, uma vez no intervalo e outra vez após sua aparição breve, mas feroz, no segundo ato, ela reflete sobre os dois papéis: “Carabosse é como um ‘spitfire’*, curto e doce”, disse Mearns. “Com a Fada Lilás me sinto mais empoderada. Você é responsável por todos os acontecimentos, você está sempre lá”.

Depois de um abraço de despedida para que ela pudesse pegar se arco – “Não se prenda às asas”, disse ela, referindo-se não ao palco, mas ao que estava apensado ao seu vestido preto brilhante – ela voltou. Para registrar, a multidão rugiu. Sara sorriu com prazer.

Abaixo o resumo da conversa:

Quem foi seu modelo/inspiração para a Carabosse?

Eu queria que ela fosse a versão Maleficent (Malévola) da Disney, na qual ela só fica lá. Ela é um pouco mais agradável por não gritar no início. Peter, meu diretor do ballet, me disse: “Carabosse é tão linda quando a Fada Lilás. Você deve estar acima de tudo isso. A diferença é que sua alma é má.”

Sua raiva parecia fever dentro de você. Foi isso mesmo que você sentiu?

Sim. Eu realmente nem achei que isso iria acontecer! Quando eu via as pessoas fazendo isso, sentindo isso, eu pensava que não havia nenhuma maneira de eu fazer isso acontecer comigo. Eu me sentia estúpida. E quando cheguei no palco, não havia ninguém parado na minha frente. E eu estava sentindo tipo, ai meu Deus, estou sentindo que isso é o certo.

O que você queria que a Carabosse fosse?

Eu não queria sair gritando como uma doida. Eu sinto que tenho uma abordagem diferente. A música é tão poderosa que faz você querer ir lá e gritar. A fantasia faz isso. Você apenas já está lá fazendo isso, só tem que dominar o sentimento. Foi bem difícil, mas como eu estava bem concentrada e comprometida com a forma como eu faria, me senti mais confortável.

A experiência foi como você imaginou que seria?

Sim e não. Eu estava esperando pela emoção de ser má no palco. Eu estava mais nervosa do que achei que estaria. Não acho que fiz um personagem que não dançava. Havia um nervosismo diferente, uma colocação diferente de pés e postura.

A fada Lilás já é tão parte de mim que posso fazê-la em qualquer momento, sem aviso prévio, mas Carabosse é muito mais profundo, foi muito mais difícil de encontrar o ela tirou de mim. Eu realmente fico mais cansada fazendo a Carabosse, porque meu corpo fica inteiramente tenso, mas você não pode ser esconder atrás da dança, que é sua zona de conforto.

Você estava dançando com as mãos?

Sim. Na primeira vez que eu usei as unhas para ensaiar no palco, eu vi o que era capaz de fazer, porque os dedos são muito mais longos do que o normal. Eu fiquei com essa ideia do que fiz no meu peito (tamborilou os dedos lentamente).

A parte que te fez rir.

Eu vim com esses dedos para o manho hoje pela manhã e senti que as mãos estavam dançando ao invés dos pés.

Suas unhas são assustadoras, o que são?

São dedos de plástico e temos que prendê-los com fita. No ensaio geral eu perdi duas unhas quando tirei a peruca de Catalabutte (mestre de cerimônias), porque não as prendi bem. Eu realmente não consigo sentir maus dedos agora de tão apertados que estão, mas é bom, pelo menos não vão cair.

Carabosse produz um tipo de adrenalina diferente da Fada Lilás?

Sim. Dançando, a adrenalina é excitante, mas a sensação é de que não posso esperar para fazer esses passos, para sentir isso. É algo mais profundo. Como se acontecesse uma coisa de alma, mais profunda. Você transforma sua alma em um lugar escuro. Você realmente não sai do palco feliz.

Eu não poderia dizer se você estava irritada porque teria que fazer uma entrevista ou se ainda estava no personagem.

Risos… Não, eu ainda não estou louca! Quando você sai, sente que fez um trabalho tão grande que você ainda está fervendo nele. Com Carabosse você realmente por ficar no personagem, você pode assustar pessoas, arremessar pessoas, fazer o que quiser. Eu quero chocá-los.

*Spitfire é uma expressão coloquial que pode ser traduzida como: cuspir-fogo, na verdade era o nome de um avião de caça, então tem um sentido: “selvagem, livre e rápido”.

 

Crédito das imagens: Natalie Keyssar for The New York Times.

Texto traduzido e adapato. Original completo AQUI.

Estrevista feita por Gia Kourlas, no New York Times, publicada em 10/02/17.

 

 

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